quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Capítulo 20 - Nunca é tarde demais

Capítulo 20
Nunca é tarde demais
- Diana Marchol

D  IANA - alguém gritou de dentro da escola.
Era segunda-feira e a última aula eu não teria, era vago. Então iria aproveitar e chegar mais cedo na pizzaria para ajudar meu pai.
- OI - gritei me virando e vendo Anna correndo em minha direção - O que houve dessa vez? O gambá voltou pra te comer?
- PARA COM ISSO! - ela começou a gritar e pular - ODEIO GAMBÁS.
Comecei a rir da reação dela. Eu entrei na escola esse mês, infelizmente no segundo ano, e conheci a Anna.
Uma menina fofa e muito maluca que virou minha amiga tão rápido quanto eu coloco meu brinco.
Na semana passada eu fui até sua casa, quando eu estava indo embora apareceu um gambá pequeno e sumiu. Ele só apareceu e sumiu, a menina deu um show ali mesmo e quase desmaiou.
- Seu amado está na diretoria, rolou a maior briga - eu arregalei os olhos e depois voltei ao normal.
- Não tenho nenhum amado, Anna - falei desviando o olhar e ajeitando minha bolsa de lado.
- Ãrrã - ela falou cruzando os braços - Eu já reparei nos seus olhos brilhando quando encontra o Jake. Nem tente me enganar.
Eu revirei os olhos.
- Ele é um...
- Idiota, eu sei! – ela me cortou - Mas você é uma garota bem determinada, então é provável que você tenha visto algo nele que ninguém viu.
- Anna, pare de ser tão louca, eu...

- Você é chata - ela me interrompeu novamente - Muito chata! Mas até você admitir sua paixão incubada, eu sou a amiga linda que passa as informações. - ela disse sorrindo.
- Que fofa - disse retribuindo com um sorriso bem forçado - Agora tenho que ir.
- Ok, vai e não fique sabendo o que aconteceu com o Jake, por que os pais dele já chegaram, então tchau e até amanhã - ela disse indo para seu carro.
Eu fiquei parada a vendo ir embora sorrindo, como sempre.
Meu telefone começou a tocar, era o meu pai.
- Oi, pai - falei ainda parada de frente a entrada da escola.
- Olá, querida! Já saiu da escola?
- Na verdade... - comecei já fechando os olhos - ...eu não estou muito afim de trabalhar hoje, vou ficar na escola estudando.
- Sério? - meu pai perguntou surpreso - Tudo bem, querida, não tem problema algum! - ele afirmou nem me deixando responder - Te vejo em casa meu amor, até.
Ele disse e desligou o celular.
Eu me sentei perto de umas árvores que tinham ao redor do estacionamento da escola.
Fiquei de segundo em segundo olhando a hora no celular. A última vez que verifiquei já tinha se passado dez minutos desde que eu estava lá, de frente para a escola.
FAZENDO NADA
Depois de mais alguns minutos Blair e Max saíram, mas o Max estava com o braço por cima do ombro de Blair e eles sorriam um para o outro, feito bobos.
Max beijou Blair quando se encostaram ao carro dele. Eles conversaram um pouco e ela só sorria, com a maior alegria nos olhos. E ele também não estava para trás, Max a observava com a mesma felicidade nos olhos, eles se beijaram novamente e entraram no carro e foram embora. Eu fiquei feliz por eles, a Blair era maneira e o Max idem, eles combinavam.
Logo que eles saíram eu ouvi passos mais pesados vindos da entrada da escola.
Era o pai de Jake saindo furioso e sua mãe, que parecia que já tinha chorado. Foi aí que vi Jake vindo um pouco atrás deles com sua blusa branca manchada com alguns pingos de sangue. Seus pais não disseram nem uma palavra, apenas entraram no carro e foram embora.
Jake se sentou nos degraus da entrada da escola e ficou olhando para o nada.
- Para com isso, Diana - falei para mim mesma - Vai embora.
Eu olhei para ele novamente, ele estava na mesma posição.
- Ok - falei determinada - Você só vai perguntar o que aconteceu.
Eu comecei a andar em sua direção e percebi a porcaria que eu estava fazendo. Por que eu estava indo até lá? Eu nem falo com ele. Mas quando eu percebi isso eu já estava de frente para ele. Ele olhou pra mim e abaixou a cabeça.
- Tá olhando o que, Diana? - ele me perguntou cheio de ignorância.
- Isso não t... Você sabe o meu nome? - perguntei assustada.
- Por que eu não iria saber o nome da única garota nessa cidade que já fui sincero, pelo menos uma vez? - ele me mirou, ele estava com o semblante de cansaço. Sentei-me ao seu lado e deixei meus braços apoiados em meus joelhos.
- Então - sorri - seja sincero novamente - falei olhando para o estacionamento.
- Você já deve estar sabendo das fofocas.
- Pior que não! Eu evito ao máximo ficar sabendo da vida aleia.
- Então você é a única - ele disse dando um riso fraco.
- Sou não - afirmei -, é que você anda com pessoas que gostam de fofoca, por isso acha que todos são assim!
Ele ficou em silêncio.
- Eu sou apaixonado pela minha irmã sabia? - ele falou me olhando.
Eu me virei para ele.
- Não parece! Parece que você a oprime de todas as formas possíveis
- Eu sei! Eu nunca soube ser uma boa pessoa.
- Nunca soube ou nunca quis?
- Talvez um pouco dos dois.
- Por que sente tanto ódio da Blair?
- Acho que não chega a ser ódio. Ela só foi a válvula de escape pra minha raiva, eu já tinha certa raiva dela e quando ela apareceu na cidade vi minha chance de despejar minha raiva em alguém.
- Isso é desumano, Jake.
- Eu sei, já disse que não sou uma boa pessoa.
- Eu sei que pode ser - falei encarando o céu.
- Você já quis que as pessoas prestassem atenção em você? Já quis que as pessoas falassem de você, com você ou de você?
- Não! - falei firme - Nunca pensei assim.
- Sorte a sua! Eu pensava assim.
- Então você não quer mais isso?
- Não! Mas eu decidi isso muito tarde.
- Nunca é tarde, Jake! - falei me levantando - É só você tentar - falei começando a caminhar em direção a qualquer lugar, eu só precisava me distanciar dele.

(...)

Fiquei algum tempo caminhando na praça pensando no que Jake tinha me dito.
Será que uma pessoa precisa de toda a atenção que ele queria para ser feliz?
Eu estava lavando a louça de ontem à noite, eu passei o resto do dia pensando nisso.
- Por que logo ele que você tinha que ficar pensando o dia todo, Diana? - falei e bati a frigideira na minha cabeça - Ai, como isso dói.
Cai sentada no chão esfregando a cabeça. A campainha começou a tocar e eu continuei sentada. A campainha tocou novamente só que duas vezes rápido.
- JÁ VAI - gritei me levantando.
Logo fiquei com raiva de terem apertado três vezes a campainha, espera-se, caramba!
- Quem é a pessoa qu...- me interrompi ao ver que era o Jake.
Ele estava com o cabelo bagunçado, uma blusa preta e uma calça jeans qualquer. Ele estava com o mesmo semblante calmo do dia em que ele foi até a pizzaria.

Aquele dia eu me lembro bem que foi horrível para mim.
- Boa tarde - Jake falou ao entrar na pizzaria.
- Boa - disse desanimada.
- Por que esta tão desanimada?
- Se você tivesse dislexia e visse seus amigos passarem de ano e você não, acho que também ficaria desanimado.
- Não ficaria, não - ele falou sorrindo me fazendo olha-lo - Se são meus amigos não se importaram de me esperar, de me ajudar e de me aconselhar.
- A maioria não fez isso - eu disse o encarando.
- Então você descobriu os que são seus amigos de verdade, você agora pode começar de novo. Nunca é tarde para recomeçar.
- Obrigada.
- Pelo que? - ele me perguntou.
- Por me escutar.
- Eu que agradeço!
- Você que me ajudou.
- Mas foi você que me permitiu! Obrigado por deixar.
- Você é legal.
- Obrigado também por ser a primeira a dizer isso.
Lembrei-me da conversa e sorri.
- Oi, Jake – o cumprimentei.
- Oi, Diana. - ele disse abaixando a cabeça -, você pode me ajudar?
- Você já me ajudou uma vez, acho que posso te ajudar!
- Não, você que vai me ajudar pela segunda vez. - ele afirmou com um sorriso triste.
- Enfim, quer ajuda em que?
- Em mudar.
- Bem - engoli em seco -, podemos começar pela sua - respirei fundo, me doía, eu não sei o porquê, dizer aquilo - coisa.
- O que? - ele perguntou assuntado.
- Aquela coisa que vive colada em você que nem filhote de cruz credo! - afirmei sem paciência.
- Você esta se referindo a Molly? - ele perguntou levantando uma das sobrancelhas.
- Essa aí mesma - afirmei cruzando os braços e dando de ombros.
- O que foi, Diana? Você por um acaso tem ciúmes de mim?
- Como assim? - afirmei batendo o pé sem encara-lo.
As nuvens estavam mais interessantes no momento.
- Ok, essa parte não é problema! Ela já esta com outro.
- Como assim? - me virei pra ele descruzando os braços - Você não se importa?
- Nem um pouco! Nunca tive nenhuma felicidade com ela, a não ser os beijos - ele disso sorrindo.
- Argh – deixei escapar.
- Você realmente tem ciúmes de mim? - ele perguntou rindo - Legal - ele disse parecendo vitorioso.
- Imbecil - falei desviando o olhar novamente.
- Imbecil que ganhou o dia!
- Por?
- Por conseguir fazer ciúmes em uma garota maneira.
Arregalei os olhos surpresa, mas ao mesmo tempo feliz. Esse era o Jake que eu sonhava em ter comigo, esse era o Jake que eu comecei a admirar secretamente e a gostar quase que publicamente por culpa do brilho em meus olhos.
- Até amanhã - falei e fechei a porta na sua cara. - Esse é o meu Jake - falei sorrindo com as mãos no coração, massageando a área. Tentando acalmar só um pouco meu coração acelerado.

(...)

- O que ele está fazendo com você? - Anna me perguntou quando apareci no refeitório com Jake ao meu lado.
Ela estava quase com a boca toda aberta olhando para Jake, enquanto o mesmo me deixava desconfortável olhando apenas para mim. E todos, TODOS DA FACE DAQUELA ESCOLA OLHAVAM PARA NÓS DOIS.
- Ele tá comigo - expliquei e Anna sorriu - Eu quis dizer esta me acompanhando - acrescentei rápido -, hoje - falei dando um sorriso forçado.
- Talvez em outros dias também - ele disse com um sorriso de canto.
- Tanto faz - falei ajeitando minha bolsa no ombro e indo em direção à mesa que Kath e Dora, outras meninas que estudavam comigo, estavam.
- Oi, meninas – cumprimentei me sentando a frente delas.
- Oi, gata - Kath falou sorrindo fofamente, até os olhinhos ela fechava. Mas quando abriu quase se engasgou com a língua. Ela mirou Jake que tinha sentado ao meu lado.
- Oi - ele disse e olhou para o outro lado.
- Longa historia - falei assim que elas me encararam.
Observei Jake que estava olhando para janela.
- Queria me desculpar, com eles - ele me disse.
Eu olhei para perto da janela.

- Então, vamos - falei segurando sua mão -, nunca é tarde, lembra?

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